terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Projeto EJA (Cultura, diversidade e cidadania)


Cultura, diversidade e cidadania
Por Angela Francisca Caliman Fiorio (Pedagoga do noturno)
PROJETO INTERDISCIPLINAR 2º SEMESTRE – EJA: “JOSÉ MARIA FERREIRA”


A proposta do presente projeto, ao apresentar uma perspectiva de educação cidadã, traz como meta norteadora de suas atividades, o resgate, a valorização e a consideração dos vários grupos culturais que compõem a sociedade brasileira, mais especificamente aqueles que, ao longo do processo de formação da nação, foram excluídos e marginalizados do processo de escolarização formal. Levando em consideração que o ser humano se constitui por meio de uma rede de relações, queremos neste projeto traçar algumas delas, entendendo que o conceito de cultura não está descolado do conceito de natureza, e que ambos, embora tenham suas especificidades, são processos que se tecem juntos, transversalizando um no outro.

Em razão desta compreensão, a recomendação da proposta pedagógica da EJA é de que no processo educativo deve existir o estímulo a uma prática que favoreça o intercâmbio de experiências entre indivíduos de diferentes culturas, através de atividades ou de projetos comuns que impliquem a disponibilidade e abertura ao outro, de modo a permitir, na construção do conhecimento, que o estabelecimento de laços afetivos favoreça uma abertura à assimilação de novos saberes.

A sociedade brasileira, tal como se apresenta atualmente, é formada pela vasta contribuição de vários grupos étnico-culturais, como negros, indígenas, europeus, asiáticos, libaneses e vários outros, os quais constituem aquilo que podemos nominar de caráter multicultural das sociedades humanas (Candau, 2002). No entanto, ao longo da história das civilizações, os povos, sobretudo africanos, indígenas e seus descendentes, foram constantemente submetidos a processos de exclusão, dominação e marginalização das condições dignas de vida, onde o acesso à escolarização formal tornou-se um recurso essencial para a cidadania plena.

Considerando o fato de que o momento atual cujos interesses e anseios de nossas sociedade regidos pela lógica economicista de mercado onde o domínio dos códigos escritos são elementos imprescindíveis à concorrência no mercado de trabalho, tais grupos historicamente marginalizados têm sua condição de exclusão agravadas quando não dominam tais códigos. O não ter oportunidade de dominar o ler e o escrever, constituem-se num entrave ao ingressar no mercado de trabalho, impossibilitando que os sujeitos disponham de condições dignas de vida. Ou seja, o não acesso a graus elevados de letramento é um fator danoso para o exercício pleno da cidadania.

Mas, a dignidade, a cidadania plena, não pode estar restrita a valores de mercado, ou, até mesmo restrita aos direitos sociais. De acordo com Candau (2002), temos que entender o exercício da cidadania não apenas como algo restrito aos direitos legais, mas, também, ao direito de uma cidadania cultural. Esta tem a ver com uma educação que trabalhe a partir da valorização, o que inclui o diálogo e o respeito. Negar e combater toda forma de padronização é lutar contra todas as desigualdades na sociedade. Só há justiça social com justiça cognitiva.

A Educação de Jovens e Adultos (EJA), proposta na legislação, como modalidade de educação aos sujeitos que foram historicamente excluídos; apresenta-se, como possibilidade, ao menos na letra da lei, de jovens e adultos freqüentarem ou retomar os estudos e poder fazer uso de recursos como a “leitura e escrita”, adquirindo condições para atuar com e nas práticas sociais que envolvam os conhecimentos relativos ao código alfabético-ortográfico. Quanto esta modalidade de educação, voltada para Jovens e Adultos, é ressignificada com a contribuição dos pressupostos da Educação Popular (FREIRE, 2003) emerge, então, com esta educação, importante instrumento de luta e desenvolvimento da consciência crítica popular.

A Educação de Jovens e Adultos se constitui, então, num importante instrumento de luta, conquista de um espaço para àqueles que, ao longo do processo de constituição da sociedade brasileira, foram colocados à margem de todo e qualquer processo que pudesse lhes garantir melhores condições de vida.

Assumimos, então, a compreensão da cidadania como um direito inalienável de todo ser humano, estando condicionada a fatores como o poder participar na sociedade através da inserção em práticas sociais que envolvam a leitura e a escrita. Dessa forma, os sujeitos poderão integrar-se ao mercado de trabalho, com vistas a que alcancem melhores condições de vida. Assim, a cidadania requer a garantia dos direitos, dadas as condições imediatas da vida em sociedade, por estar relacionada à capacidade dos sujeitos se desenvolverem como pessoas autônomas, tendo o exercício do diálogo como instrumento fundamental numa perspectiva de valorização da vida humana. Tudo isso implica em saber ouvir o outro de maneira respeitosa, saber conviver com as diferenças e saber que a diferença não implica em desigualdade, nem em desvalor; mas, somente diferença que se constitui por meio das relações.

Não acreditamos que a educação deva estar voltada apenas para a formação de sujeitos competentes e competitivos para o mercado; antes, rechaçamos uma educação cujo saber utilitário se vincula apenas a formação para a competição. O que propomos é que a educação, enquanto mecanismo de conscientização e de conquista de condições dignas de vida constitui-se num elemento importante na luta pela efetivação e garantia de uma sociedade menos desigual e com melhores oportunidades para todos os que dela fazem parte.


CANDAU, Vera Maria (org.). Sociedade, educação e cultura(s): questões e propostas. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.

FREIRE, Paulo. Educação de Adultos. In: GADOTTI, Moacir; ROMÃO, José (orgs). Educação de Jovens e Adultos: teoria, prática e proposta. São Paulo: Cortez, 2003.

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