Cultura, diversidade e
cidadania
Por Angela Francisca Caliman Fiorio (Pedagoga
do noturno)
PROJETO INTERDISCIPLINAR 2º SEMESTRE – EJA:
“JOSÉ MARIA FERREIRA”
A proposta do
presente projeto, ao apresentar uma perspectiva de educação cidadã, traz como
meta norteadora de suas atividades, o resgate, a valorização e a consideração
dos vários grupos culturais que compõem a sociedade brasileira, mais
especificamente aqueles que, ao longo do processo de formação da nação, foram
excluídos e marginalizados do processo de escolarização formal. Levando em
consideração que o ser humano se constitui por meio de uma rede de relações,
queremos neste projeto traçar algumas delas, entendendo que o conceito de
cultura não está descolado do conceito de natureza, e que ambos, embora tenham
suas especificidades, são processos que se tecem juntos, transversalizando um
no outro.
Em razão desta
compreensão, a recomendação da proposta pedagógica da EJA é de que no processo
educativo deve existir o estímulo a uma prática que favoreça o intercâmbio de
experiências entre indivíduos de diferentes culturas, através de atividades ou
de projetos comuns que impliquem a disponibilidade e abertura ao outro, de modo
a permitir, na construção do conhecimento, que o estabelecimento de laços
afetivos favoreça uma abertura à assimilação de novos saberes.
A sociedade
brasileira, tal como se apresenta atualmente, é formada pela vasta contribuição
de vários grupos étnico-culturais, como negros, indígenas, europeus, asiáticos,
libaneses e vários outros, os quais constituem aquilo que podemos nominar de caráter
multicultural das sociedades humanas (Candau, 2002). No entanto, ao longo
da história das civilizações, os povos, sobretudo africanos, indígenas e seus
descendentes, foram constantemente submetidos a processos de exclusão,
dominação e marginalização das condições dignas de vida, onde o acesso à
escolarização formal tornou-se um recurso essencial para a cidadania plena.
Considerando o fato
de que o momento atual cujos interesses e anseios de nossas sociedade regidos
pela lógica economicista de mercado onde o domínio dos códigos escritos são
elementos imprescindíveis à concorrência no mercado de trabalho, tais grupos
historicamente marginalizados têm sua condição de exclusão agravadas quando não
dominam tais códigos. O não ter oportunidade de dominar o ler e o escrever,
constituem-se num entrave ao ingressar no mercado de trabalho, impossibilitando
que os sujeitos disponham de condições dignas de vida. Ou seja, o não acesso a
graus elevados de letramento é um fator danoso para o exercício pleno da
cidadania.
Mas, a dignidade, a
cidadania plena, não pode estar restrita a valores de mercado, ou, até mesmo restrita
aos direitos sociais. De acordo com Candau (2002), temos que entender o
exercício da cidadania não apenas como algo restrito aos direitos legais, mas,
também, ao direito de uma cidadania cultural. Esta tem a ver com uma educação
que trabalhe a partir da valorização, o que inclui o diálogo e o respeito.
Negar e combater toda forma de padronização é lutar contra todas as
desigualdades na sociedade. Só há justiça social com justiça cognitiva.
A Educação de Jovens
e Adultos (EJA), proposta na legislação, como modalidade de educação aos
sujeitos que foram historicamente excluídos; apresenta-se, como possibilidade,
ao menos na letra da lei, de jovens e adultos freqüentarem ou retomar os
estudos e poder fazer uso de recursos como a “leitura e escrita”, adquirindo
condições para atuar com e nas práticas sociais que envolvam os conhecimentos
relativos ao código alfabético-ortográfico. Quanto esta modalidade de educação,
voltada para Jovens e Adultos, é ressignificada com a contribuição dos
pressupostos da Educação Popular (FREIRE, 2003) emerge, então, com esta
educação, importante instrumento de luta e desenvolvimento da consciência
crítica popular.
A Educação de Jovens
e Adultos se constitui, então, num importante instrumento de luta, conquista de
um espaço para àqueles que, ao longo do processo de constituição da sociedade
brasileira, foram colocados à margem de todo e qualquer processo que pudesse
lhes garantir melhores condições de vida.
Assumimos, então, a
compreensão da cidadania como um direito inalienável de todo ser humano,
estando condicionada a fatores como o poder participar na sociedade através da
inserção em práticas sociais que envolvam a leitura e a escrita. Dessa forma,
os sujeitos poderão integrar-se ao mercado de trabalho, com vistas a que alcancem
melhores condições de vida. Assim, a cidadania requer a garantia dos direitos,
dadas as condições imediatas da vida em sociedade, por estar relacionada à
capacidade dos sujeitos se desenvolverem como pessoas autônomas, tendo o
exercício do diálogo como instrumento fundamental numa perspectiva de
valorização da vida humana. Tudo isso implica em saber ouvir o outro de maneira
respeitosa, saber conviver com as diferenças e saber que a diferença não
implica em desigualdade, nem em desvalor; mas, somente diferença que se
constitui por meio das relações.
Não acreditamos que a
educação deva estar voltada apenas para a formação de sujeitos competentes e
competitivos para o mercado; antes, rechaçamos uma educação cujo saber
utilitário se vincula apenas a formação para a competição. O que propomos é que
a educação, enquanto mecanismo de conscientização e de conquista de condições
dignas de vida constitui-se num elemento importante na luta pela efetivação e
garantia de uma sociedade menos desigual e com melhores oportunidades para
todos os que dela fazem parte.
CANDAU, Vera Maria
(org.). Sociedade, educação e
cultura(s): questões e propostas. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
FREIRE, Paulo. Educação de Adultos. In:
GADOTTI, Moacir; ROMÃO, José (orgs). Educação de Jovens e Adultos: teoria,
prática e proposta. São Paulo: Cortez, 2003.
Nenhum comentário:
Postar um comentário